Medicina do Estilo de Vida

Comida apimentada e o fígado – mitos e verdades

Hoje, 16 de janeiro, é comemorado o Dia Internacional da Comida Apimentada, uma data para celebrar e apreciar pratos com pimenta de diversas culturas, como mexicana, tailandesa e brasileira, destacando seus sabores intensos e benefícios à saúde.

Mas a cultura popular diz que a pimenta faz mal para o fígado. Será que isso é verdade ? Ou será que faz bem ? E quem tem doença do fígado, pode comer comida apimentada ? O que a Medicina sabe sobre isso ?

A ardência típica das pimentas (malagueta, dedo-de-moça, jalapeño, etc.) vem principalmente da capsaicina (e capsaicinoides). Ela ativa um “sensor” de calor/dor presente no corpo, chamado TRPV1 — por isso a sensação de queimor.

Curiosidade: a capsaicina não “queima” de verdade a mucosa. Ela engana os receptores de sensação térmica e dor, como se você tivesse encostado em algo quente.

Sim, como quase tudo que comemos. A capsaicina é absorvida e passa por metabolismo no fígado, utilizando as enzimas do tipo citocromo P450 (um conjunto de enzimas que ajuda o organismo a processar várias substâncias).

E isso não significa “sobrecarregar” o fígado. Metabolizar substâncias é justamente uma das funções normais do fígado.

Para a grande maioria das pessoas, não há evidência de que pimenta, em quantidades alimentares habituais, cause dano hepático.

O que existe na literatura científica é:

  • Estudos experimentais (em células e animais) sugerindo efeitos potencialmente benéficos da capsaicina em cenários de inflamação, gordura no fígado e fibrose (cicatrização). Mas isso não é o mesmo que provar benefício clínico em humanos comendo pimenta no dia a dia.
  • Estudos observacionais em humanos (que observam padrões de alimentação e saúde) encontrando associação entre comer comida apimentada com certa frequência e menor risco de desenvolver esteatose hepática/“gordura no fígado” (MASLD/NAFLD). Importante: associação não prova causa e efeito, e não mostrou proteção clara para fibrose avançada.

Resumo honesto: pimenta não é “vilã do fígado” e pode até aparecer associada a alguns resultados metabólicos melhores em estudos populacionais — mas não é tratamento e não substitui as medidas com eficácia comprovada.

Muita gente sente piora de sintomas digestivos e atribui ao fígado, quando o mecanismo é outro. Pimenta pode piorar:

  • Azia/refluxo (especialmente em pessoas suscetíveis)
  • Gastrite/sintomas dispépticos
  • Síndrome do intestino irritável (em alguns casos)
  • Ardor anal/hemorroidas (pela irritação local)

Ou seja: o desconforto pode ser real, mas geralmente não é o fígado “sofrendo”.

Em geral, pode, se a pessoa tolera bem e se o apimentado não piora sintomas gastrointestinais.

O ponto principal para saúde do fígado — especialmente na MASLD (“gordura no fígado” metabólica) — continua sendo o que as diretrizes enfatizam: controle de peso, alimentação de qualidade, atividade física e controle de diabetes/colesterol/pressão, e não “cortar pimenta”.

Alguns cuidados são sensatos:

  1. Moderação e tolerância individual
    Se pimenta te dá azia forte, dor, diarreia ou mal-estar, reduza. “Saudável” é o que seu corpo tolera.
  2. Cuidado com “extratos” e suplementos ultra concentrados
    Não é a mesma coisa que temperar a comida. Produtos concentrados podem ter doses bem maiores do que a alimentação comum e podem sim causar doença do fígado.
  3. Interações e situações específicas
    Como a capsaicina é metabolizada no fígado (incluindo vias P450), o tema “interação medicamentosa” existe em teoria, mas isso costuma ser mais relevante com suplementos/extratos, não com comida normal.
  1. Capsaicin: a spicy way in liver disease. PubMed Central
  2. Metabolism of capsaicinoids by P450 enzymes. PubMed Central
  3. Association between spicy food consumption and the risk of non-alcoholic fatty liver disease/metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease and liver fibrosis (coorte). Frontiers in Nutrition, 2025.
  4. AASLD – Clinical Assessment and Management of MASLD (página de diretrizes e atualizações).
  5. Capsaicin as a microbiome modulator: metabolic interactions (inclui metabolismo hepático e P450). MDPI Metabolites.

Deixe um comentário