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Novos medicamentos para emagrecer e a gordura no fígado

Dr. Stéfano Gonçalves Jorge


A esteatose hepática (conhecida popularmente como “gordura no fígado”) é considerada hoje a doença hepática crônica mais comum no mundo, afetando cerca de um quarto da população global. No Brasil, estima-se que 1 em cada 3 adultos tenha algum grau da condição, que pode progredir para fibrose, cirrose e até câncer de fígado.

O problema vai além do fígado: a esteatose está fortemente associada a obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, compondo o chamado espectro cardiometabólico. Assim, cuidar da saúde do fígado significa também reduzir o risco de infarto, AVC e complicações metabólicas.

Apesar da gravidade, a esteatose é potencialmente reversível. Mudanças no estilo de vida, como perda de peso, alimentação equilibrada e atividade física, são pilares fundamentais. Nos últimos anos, porém, avanços na farmacoterapia, especialmente com os agonistas de GLP-1 e GIP, trouxeram novas perspectivas de tratamento eficaz e seguro, capazes de atacar não apenas o excesso de peso e o diabetes, mas também a gordura e a inflamação no fígado.

Critérios para síndrome metabólica de acordo com o NCEP-ATP III (National Cholesterol Education Program Adult Treatment Panel III) e a IDF (International Diabetes Federation)

Nesse texto, vamos abordar especificamente o que chamamos hoje de doença hepática esteatótica metabólica (DHEM), também conhecida como “gordura no fígado” ou “doença hepática gordurosa não alcoólica“. Essa é uma doença associada a síndrome metabólica (condição que engloba obesidade, hipertensão, diabetes, aumento de colesterol e triglicérides, mas não precisa ter tudo isso para diagnóstico).

História natural da esteatose hepática não alcoólica

Além da síndrome metabólica, outras condições podem levar ao excesso de gordura no fígado, principalmente o álcool (e alguns medicamentos). O mais importante é que essa gordura pode desencadear uma inflamação (esteato-hepatite), que evolui silenciosamente por anos, levando a fibrose (acúmulo de cicatrizes) progressiva do fígado até chegar a cirrose e risco de câncer de fígado.

A gordura no fígado está diretamente relacionada ao excesso de peso, principalmente quando a gordura se acumula na região abdominal. Esse tipo de gordura, chamado de gordura visceral, libera substâncias inflamatórias e ácidos graxos livres que chegam ao fígado e pioram a inflamação.

Diversos estudos mostraram que a perda de peso é a intervenção mais eficaz para reduzir a gordura do fígado e melhorar a inflamação. Outras intervenções incluem a abstinência alcoólica, controle do diabetes, do colesterol e dos triglicérides e suspender medicamentos que lesam o fígado.

O problema é que alcançar e, principalmente, manter essa perda de peso a longo prazo apenas com mudanças no estilo de vida é um grande desafio. Estudos de acompanhamento mostram que, em média, menos de 10% das pessoas conseguem manter essa redução de peso por vários anos apenas com dieta e exercício. Isso acontece porque o corpo tende a se defender da perda de peso, diminuindo o gasto energético e aumentando a sensação de fome.

É nesse ponto que entram os medicamentos mais modernos, como os agonistas de GLP-1 e GIP. Eles atuam reduzindo o apetite, controlando a glicemia e ajudando o corpo a queimar gordura com mais eficiência, o que facilita não apenas a perda, mas também a manutenção do peso perdido. Dessa forma, além de melhorar o metabolismo como um todo, esses remédios têm um impacto direto no fígado.


Nosso corpo possui uma série de hormônios produzidos no intestino após as refeições, chamados hormônios incretínicos. Eles funcionam como mensageiros, levando sinais para o pâncreas, o cérebro e até o fígado, regulando a fome, a saciedade e a forma como usamos ou armazenamos energia. Entre eles, dois ganharam destaque nos últimos anos: GLP-1 e GIP.

  • GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1): é liberado pelo intestino logo depois das refeições. Ele estimula o pâncreas a liberar insulina de forma controlada, diminui a produção de glucagon (hormônio que eleva a glicose), retarda o esvaziamento do estômago e age diretamente no cérebro para reduzir a fome.
  • GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose): também ajuda a estimular a liberação de insulina, mas tem um papel adicional em regular a forma como o corpo estoca gordura e como o tecido adiposo conversa com o metabolismo.

A medicina moderna aprendeu a imitar esses hormônios por meio de medicamentos chamados agonistas (agonistas são remédios que estimulam algum receptor nas células para aumentar alguma função, enquanto antagonistas fazem o contrário). Eles se ligam aos mesmos receptores no organismo, prolongando e potencializando os efeitos naturais.

  1. Agonistas de GLP-1
    • Exemplos: liraglutida (Victoza® e Saxenda®), semaglutida (Ozempic®, Rybelsus® e Wegovy®), dulaglutida (Trulicity®).
    • Efeitos principais: reduzem a fome, promovem perda de peso significativa, melhoram o controle da glicemia e têm efeitos benéficos no sistema cardiovascular.
  2. Agonistas duplos GLP-1/GIP
    • Exemplo: tirzepatida (Mounjaro®).
    • O diferencial é que, ao combinar as ações dos dois hormônios, a perda de peso pode ser ainda maior do que com os agonistas de GLP-1 isolados.
  3. Novas moléculas em estudo (GLP-1 + glucagon)
    • Exemplo: survodutida.
    • Além de agir na fome, esse tipo de combinação parece estimular o corpo a queimar mais energia e gordura, o que pode ter impacto direto na redução da fibrose hepática — algo que nenhum tratamento medicamentoso havia mostrado de forma tão consistente até agora.

O fígado gorduroso está no centro de um círculo vicioso: excesso de calorias → acúmulo de gordura → inflamação → fibrose. Ao ajudar no controle de peso, reduzir a resistência à insulina e modular a inflamação, os agonistas de GLP-1 e GIP quebram esse ciclo em vários pontos ao mesmo tempo.


  • Em um grande estudo (NEJM 2021), quase 60% dos pacientes com esteato-hepatite que usaram semaglutida tiveram resolução da inflamação do fígado, contra apenas 17% no grupo placebo.
  • Em 2025, o estudo ESSENCE confirmou que a semaglutida, além de reduzir a inflamação, também pode ajudar na melhora da fibrose.
  • Foi a primeira dessa classe a mostrar benefícios no fígado. No estudo LEAN, 39% dos pacientes tiveram resolução da doença contra apenas 9% no grupo placebo.
  • Em 2024, o estudo SYNERGY-NASH mostrou que a tirzepatida não só reduziu muito a gordura do fígado como também melhorou a inflamação e a fibrose.
  • Pacientes perderam mais peso e tiveram resultados superiores aos já vistos com os agonistas de GLP-1 isolados.
  • Ainda em fase de pesquisa, mas já demonstrou em estudos iniciais redução da gordura e melhora da fibrose. Pode representar um passo além no futuro.

Os efeitos mais comuns dos agonistas de GLP-1 e GIP envolvem o sistema digestivo:

  • Náuseas (sensação de enjoo) e vômitos
  • Diarreia ou constipação
  • Dor abdominal leve ou inchaço
  • Refluxo gastroesofágico e pirose (queimação)

Geralmente esses sintomas aparecem no início do tratamento, principalmente nas primeiras semanas ou quando a dose é aumentada. A boa notícia é que, na maioria das pessoas, eles tendem a melhorar com o tempo, conforme o organismo se adapta. É por isso que o tratamento com esses medicamentos começa com uma dose mais baixa e vai aumentando aos poucos, para evitar sintomas mais intensos.

Do mesmo modo, outro efeito colateral comum é a queda de cabelo, que ocorre pela perda de peso, não pela medicação em si. A fraqueza é comum, e pode ser causada tanto pela falta de calorias quanto por efeito hormonal, já que o organismo está acostumado a dietas mais calóricas e tende a produzir mais insulina. Isso também se resolve com o tempo e dieta adequada.

Pacientes que perdem peso de forma rápida, seja por dieta, cirurgia bariátrica ou medicamentos, apresentam um risco um pouco maior de desenvolver pedras na vesícula (colelitíase). Nos estudos clínicos, esse efeito também apareceu com os agonistas de GLP-1, mas ainda é considerado incomum. Por isso, durante o tratamento, é importante ficar atento a sintomas como:

No início do uso desses medicamentos, discutiu-se muito sobre o risco de pancreatite aguda (inflamação do pâncreas) com esse grupo de medicamentos. Estudos mais recentes sugerem que o risco é baixo. É importante avisar o médico se houver dor abdominal intensa e persistente, especialmente irradiando para as costas, acompanhada de náuseas e vômitos.

A princípio, esses medicamentos não levam a riscos cardiovasculares ou renais, pelo contrário. Eles reduzem chances de infarto, AVC e piora da função dos rins em pacientes de alto risco.


Apesar de relatos raros de toxicidade no fígado, alterações nas enzimas hepáticas tendem a ser leves e transitórias, observando-se mais normalização de enzimas alteradas por esteato-hepatite do que lesão pela medicação. No momento, doenças hepáticas crônicas (hepatites virais, hepatite autoimune e outras) não são contraindicações ao uso de análogos GLP-1/GIP. Pelos dados que temos até agora eles também são seguros em pacientes com cirrose hepática compensada (Child-PughA), mas ainda não há dados suficientes de segurança em portadores de cirrose mais avançada.

Sarcopenia é a perda de massa muscular, que pode ocorrer em diversas doenças. Na cirrose, a sarcopenia ocorre porque o fígado não consegue manter a quantidade de açúcar constante entre as refeições, levando o organismo a consumir músculo quando fica em jejum. Com o uso de agonistas GLP-1/GIP, essa complicação pode ser exacerbada e difícil de reverter.

Além disso, o uso mesmo em portadores de cirrose compensada exige cuidados especiais, particularmente em relação ao risco de perda rápida de peso com perda de massa muscular (sarcopenia), que está relacionada a piora da qualidade de vida e complicações como ascite e encefalopatia hepática.

Sociedades europeias (EASL, 2024) recomendam que pessoas com MASLD e obesidade ou diabetes considerem o uso de agonistas de GLP-1 ou GIP como parte do tratamento.

Nos EUA, em 2024, foi aprovado o resmetirom, primeiro medicamento específico para tratar a fibrose na esteato hepatite metabólica. Ele pode, no futuro, ser usado em combinação com agonistas de GLP-1/GIP, ampliando o benefício.


Terapias combinadas: combinar medicamentos que atuam no fígado (como o resmetirom) com agentes metabólicos (GLP-1/GIP) para atacar gordura, inflamação e fibrose simultaneamente.

Novos co-agonistas e tri-agonistas: foco em compostos que tenham perfil equilibrado: bom efeito metabólico + efeito direto no fígado + menor toxicidade. Compostos como cotadutide, pemvidutide, efinopegdutide e survodutide têm mostrado redução de gordura hepática e melhoria de MASH em ensaios iniciais.

Personalização do tratamento: uso de biomarcadores genéticos, moleculares e de imagem para identificar quem responde melhor a quais medicamentos. Ajuste da dose baseado em tolerância, perfil de risco, presença de comorbidades (como diabetes, obesidade, doença cardiovascular).


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